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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Uma garota de lindas pernas. / Una chica con las piernas hermosas



A primeira vez que a vi foi num bar na rua Alvarado. Lisa era o nome. Na época eu tinha 24 anos e ela aparentava uns 35. Ela estava lá sentada no centro do bar e os dois bancos ao seu redor estavam vazios. Achei um tanto estranho não haver nenhum cara lhe penteando, tentando conseguir uma boa trepada.

Comparada com a maioria das mulheres que frequentavam  aquele antro, ela realmente bonita. Seu rosto era meio arredondado e seu cabelo aparentemente nada tinha de excepcional, mas havia uma espécie de quietude e paz no modo como se sentava. Algo confortante que só as pessoas em paz conseguem passar. Sentia também um pouco de tristeza e timidez no seu jeito de olhar.

Levantei de meu banco para ir ao banheiro e tanto na ida como na volta passei ao seu lado; dei uma boa olhada nela. Era pequena, miúda, um pouco atarracada, mas com ancas perfeitas, bem formadas. No entanto a parte mais exuberante de seu corpo eram as pernas: tornozelos roliços, barrigas de pernas perfeitas, joelhos que imploravam para serem tocados, quase gritando, e coxas maravilhosamente torneadas.

Era como se aquela parte de seu corpo não tivesse sentido o peso do tempo, enquanto o resto dele se definhara.

Seu queixo era redondo como uma rosca e seu rosto bastante fofo. Parecia estar bêbada.
Ela usava sapatos de salto alto, pretos e brilhantes; em seu braço esquerdo havia três pulseiras de ouro falsificado e vagabundo e um pouco acima do pulso uma escura pele de toupeira, ou outra porra qualquer morta. Fumava um cigarro comprido e seu olhar estava fixo no copo de bebida. Parecia estar tomando whisly junto com uma garrafa de cerveja pra suavizar o baque.

Voltei par ao meu banco, acabei com meu whisly e pedi outro ao barman. Quando ele trouxe a bebida eu perguntei-lhe sobre as lindas pernas.

— Oh! — Exclamou ele — é a Lisa.
— Ela é bem bonita, —  comentei —  por que nenhum dos homens se senta ao seu lado? 
— Isso é simples, — ele respondeu. — Ela é louca.

Depois disso retirou-se. Peguei o meu copo e fui até Lisa. Sentei-me no banco à sua esquerda, acendi um cigarro e tomei um gole da minha bebida. Eu já estava parcialmente bêbado. Peguei meu whisly e virei-o de uma só vez. Chamei o barman de novo:

— Repita a dose pra nós dois, e traga também duas cervejas.
Ao ouvir isso, Lisa acabou com sua bebida.
Quando as novas chegaram, cada um de nós tomou um gole d seu. Em seguida ficamos ambos olhando para o infinito.

Acho que alguns segundos se passaram até que ela disse:
— Não gosto das pessoas, e você?
— Também não.
Ela secou sua bebida e tomou um gole de cerveja. Fiz o mesmo.
— Sou louca — disse ela.
— Você é louco? Perguntou.
Sim.
Chamei o barman
— Eu pagarei a próxima — ela disse.

Encomendou as bebidas como se aquele ato fosse a coisa mais cotidiana em sua vida, como se fosse tudo que ela havia feito nos últimos dez anos ou quinze anos. Quando elas chegaram eu disse:
— Obrigado Lisa.
— É um prazer... Qual o seu nome?
— Hank.
— É um prazer, Hank.
— Tomou um gole e olhou pra mim de um jeito estranho.
— Você é louco o bastante pra quebrar o espelho de um bar?
— Acho que já fiz isso.
— Onde foi?
— O Orchoid room.
— O Orchoid room é um lugar estúpido e bobo.
— Não o freqüento mais.

Em seguida, Lisa, num só gole, bebeu quase toda a garrafa e suspirou.
— Cara, eu vou quebrar o espelho deste bar.
— Vá em frente — eu sugeri.

Acabou com a bebida levantou-se e pegou a garrafa de cerveja vazia. Levantou-se e colocou-a atrás da cabeça.
Num impulso repentino eu saltei tentando segurar seu braço, mas foi tarde demais.

A garrafa de cerveja, em trajetória de arco, voou até o espelho enquanto minha mente disse rapidamente:
— Não, não, merda!
Houve um aguçado estrondo de coisas se partindo, e estilhaços de vidros voaram como gigantes pingentes de gelo. Por alguma razão estranha as luzes se apagaram.

Foi assustador, mágico e lindo.
Acabei com meu whisky.

No escuro vi algo branco se aproximar. Era o barman que se reduzira a camisa e avental. Estava se mexendo rapidamente.
— Sua puta louca! — ele gritou.
— Vou te matar!

Posicionei Lisa atrás de mim. Tateei no escuro e achei a minha garrafa de cerveja. Quando o barman se aproximou dei sorte de acertá-lo na têmpora esquerda. No entanto, o desgraçado não caiu, ficou ali de pé no escuro com aquela roupa branca. Parecendo um desses porteiros de hotel chic esperando um táxi.

Passei a garrafa para minha mão esquerda e acho que pude sentir fraturar sua têmpora direita. Caiu em direção ao balcão, mas se segurou com ambas as mãos em um dos cantos.
Ficou assim por alguns instantes para em seguida tombar em direção À rua Alvarado.
Quando alcançou o chão as luzes se acenderam. Um sincronismo estranho, realmente.
Por um segundo parecia que todos no bar estavam congelados: os bebuns, eu, Lisa e o barman.

Em seguida eu berrei:
— “Vambora!”.
Agarrei Lisa pelo braço e a arrastei em direção à saída. No instante seguinte estávamos num beco. Eu a puxava.
— Venha, venha rápido!
— Não consigo correr com estes horríveis saltos.
— Então tira essa porra — eu disse.

Ela parou, arrancou-os dos pés, passou-me um, ficou com o outro, e corremos atravessando o beco. Quando chegamos ao outro lado, olhei para trás. Não estávamos sendo perseguidos.
— Tudo certo. Coloque os sapatos.
Assim fez. Enfiou o primeiro, apoiou-se no meu ombro e enfiou o segundo. Ficou em pé balançando aquele rabo divino.
— Pronto, vamos!
— Pra onde? Ela perguntou.
— Pra minha casa.
— Estávamos no final do beco, perto de uam esquina. Vi um ônibus, ergui meu braço e fiz sinal: puxei Lisa. O motorista já havia fechado a porta, mas parecia ser um cara legal, e a reabriu. Entrei empurrando Lisa e paguei as passagens. Tentei fazer com que se sentasse mas não consegui, ela ficou de pé segurando no encosto do banco.
Olhou-me bruscamente. Através de seus olhos verdes percebi uma enorme irritação. Ela disse:
— Merda! Quero um táxi. Sou uma dama. Não ando nesta bosta de transporte.
Lisa parecia uma linda gazela bêbada e sua maravilhosa bunda balançava com o sacolejar do ônibus.
— Eu quero um táxi. Sou uma senhora. Que fudição é essa?
— Bem, são só quatro quadras.
— Merda! — ela berrava — merda!

O próximo ponto era o nosso. Dei o sinal de parada. Na verdade apenas puxei aquela porra de fio. O ônibus parou. Peguei a mão de Lisa, passei meu braço pela sua cintura e ajudei-a a descer. Através da porta aidna abert ao motorista me olhou e disse:
—  Boa sorte cara. Vai precisar dela.
— Vá se foder, você está com inveja! — respondi.

Ele riu, fechou a porta e sumiu com o ônibus na escuridão da noite. Eu gostei dele, parecia ser um cara comum, apenas estava dirigindo aquela merda de lata velha tentando mudar a sorte. Simplesmente não dava, e algum dia iria desistir de tudo, assim como eu também.
Lisa aparentava estar cada vez mais bêbada, e eu também não estava nada bem. Eu lhe ajudava a andar com um dos meus braços em volta de sua cintura, e o outro segurando seu braço direito ao redor de meu pescoço. Suas lindas pernas estavam desistindo e se entregando.
— Você não tem uma porra de carro?
— Não.
— Você é um cuzão.
— Sim.
Aos poucos chegávamos perto de meu apartamento.
— Tem alguma coisa para beber lá em cima? Se não tiver eu não vou entrar nesse lugar.
— Muitas garrafas de vinho... as melhores.
— Estou doente — disse ela, e se inclinou para a esquerda.

Eu estava tão bêbado que não consegui segurá-la. Caímos. A sorte foi que havia uma cerca do nosso lado, despencamos em cima dela. Caí na folhagem, rolei para trás e acabei deitado de costas na calçada. Levantei e olhei para baixo. Lá estava Lisa, deitada ao luar; metade de seu corpo na cerca e a outra metade na calçada. Sua saia estava levantada expondo as pernas mais lindas do planeta. As pernas brilhavam pra mim. Fiquei pasmo como que se não acreditando no que via. Quase gozei. No entanto, logo voltei À realidade.
— Lisa! — eu disse —Lisa, por favor levanta,  acorda!
— Annh?
— A polícia vem vindo.

Consegui levantá-la e chegar à porta da frente do prédio. Fomos diretamente para o elevador já estava lá. Entramos. Enquanto a segurava, apertei o botão do meu andar. O troço fez um barulho e começou a subir.
— Sinto falta de meu filho. Quero meu bebê.
— É lógico que quer, — retruquei.

Tirei-a de lá e quando abri a porta do apartamento ambos caímos de novo.
Lisa se levantou, deu uma sacudida, arrumou sua saia, apanhou a bolsa e atravessou a sala para sentar numa cadeira.

Começou a fuçar ali dentro, digo, da bolsa, à procura de seus cigarros. De lá de fora, o neon mais vermelho de Los Angeles penetrava pela janela.
Abri uma garrafa de vinho para ela e a servi; ao som discreto e sedutor do esfregar de nylon, ela cruzou as pernas.

Na poltrona à sua frente, eu tinha outra garrafa. Já havia enchido meu copo. Esvaziei-o e tornei a enchê-lo.

Lisa olhou pra mim. Seus olhos foram ficando cada vez maiores. Parecia estar ficando doida, maluca. Então disse:
—  Você pensa que é grande merda? Você pensa que é o Sr. Van Bilderass?
Eu já estava de roupa íntima, cueca manchada e rasgada como sempre. Levantei. Dei um pulo e bati nas minhas coxas.
— Ei, você pensa que tem boas pernas? Olhe para estas.
Voltei para a poltrona e bebi mais meio copo. Ela simplesmente continuou olhando para mim daquela maneira. Seus olhos iam ficando maiores e maiores. Imensos.
— Você pensa que é o Sr. Van Bilderass?
— Claro!
Ela se inclinou para pegar a garrafa de vinho, que já havia tampado e, enquanto me olhava com seus imensos olhos selvagens, elevou a garrafa até a cabeça. Aquela louca se preparava para atirar a porra da garrafa em mim. Berrei:
— Espere aí!
Ela ficou imóvel com o braço erguido. Tentei pensar rápido. Eu disse:
— Se você quiser atirar essa filha-da-puta, você pode, mas se você fizer isso é bom que me desmaie, caso contrário eu vou devolvê-la arrancando sua cabeça.
Colocou a garrafa no chão com aquele olhar louco. Suspirei aliviado. Fui até lá, destampei a garrafa, e enchi meu copo; depois fiz o mesmo com o seu. Voltei para a minha poltrona e me sentei. Sentia-me estranhamente bem.
— Agora quero que levante sua saia um pouco mais, sua puta.
Fiquei surpreso quando ela o fez. A saia estava agora duas polegadas acima de seu joelho.
—  Agora me dá mais uma polegada. Nada mais do que isso.
Ela o fez.
Levantei-me e fiquei à sua frente. Cada curva e reentrância de seu corpo era estupendo. Eu morria de tesão. Seus sapatos reluziam.
— Torça seu tornozelo. Erga a perna um pouco, meu bem.
Lisa obedeceu.
— Agora pare aí!  — ela parou.
— Agora quero mais uma polegada, vamos!
Lisa levantou a sai mais um pouco.
— AAH!, assim, assim está bem!
Virei um bicho sedento, ajoelhei-me e acariciei suas pernas, enfiei a mão por entre as coxas e desci até os joelho. Ela me olhou maliciosamente:
  Você é um estúpido fudido. Um maluco.
Peguei seu pé e beijei seu sapato de salto alto. Em seguida fui subindo até o tornozelo.
— Você não é um assassino, é? — ela perguntou.
— Uma de minhas amigas foi amarrada por um cara aos pés de sua cama e o viado a esfaqueou. O cara ia retalhar ela todinha, mas ela gritou tão alto que os “ratos” ouviram e a salvaram. Você não é...
— Cala a boca!
Levantei e coloquei o pau para fora. Cuspi na palma da mão e comecei a massageá-lo.
— Você é uma puta fudida! —
 Eu disse.
Continuei a me esfregar com naturalidade. Não tinha nada a perder.
— Outra polegada, mostre-me outra polegada!
Continuei esfregando.
— Mais, mostre-me mais, mais!
Era o segredo e o truque e a penetração. A amplitude dos sentidos.
— Ahhh, meu Deus, consegui!
A substância branca e pastosa jorrou; era o alívio de anos de frustração e solidão. À medida que eu expelia aquela gosma branca sobre suas pernas de nylon, parecia sentir em cada gota a angústia dos excluídos, dos esquecidos e do triste ser que eu era.
Ela berrou e deu um pulo.
— Seu porco! Seu porco fudido, idiota!
Lisa correu até o banheiro. Peguei a ponta de minha camisa e me limpei com ela. Voltei para a poltrona, enchi um copo e acendi um cigarro. As coisa pareciam ter algum sentido agora.

Lisa voltou do banheiro, sentou-se e se serviu de um copo. Acendeu um cigarro, e deu um trago profundo nele. Soltou a fumaça devagar. Sua voz sobressaiu-se por detrás da nuvem branca.
—  Seu pobre miserável fudido!
— Eu te amo, sua puta! — Eu disse.
Ela virou o rosto para  a parede.
Mal eu sabia que era o começo dos dois anos mais miseráveis e fortalecedores de minha vida.
— Esta é a única bebida que tem aí para oferecer? Este vinho fudido e barato?
— Não é tão ruim assim, Lisa. O que eu faço quando bebo é pensar em algo bem agradável como cachoeiras, ou uma conta bancária de quinhentos dólares. Ou as vezes eu imagino que estou num castelo com um fosso em volta. Ou ainda, finjo ser o dono de uma casa de bebidas finas.
— Você é louco, cara! — Ela disse.
E estava absolutamente certa.



de Charles Bukowski Traduzido por: Mário Campos



La primera vez que la vi fue en un bar de la calle Alvarado. Lisa fue el nombre. En ese momento yo tenía 24 años y ella miró a su alrededor 35. Ella estaba sentada allí en el centro de la barra y los dos bancos a su alrededor estaban vacías. Me pareció extraño que no se peina su cara, tratando de conseguir un buen peluche.

En comparación con la mayoría de las mujeres que asistieron a una sala, que realmente hermosa. Su rostro estaba ligeramente redondeadas y al parecer su cabello era cualquier cosa menos excepcional, pero había una especie de calma y paz en el camino estaba sentado. Algo reconfortante que la gente sólo puede ir en paz. Él también se sentía un poco de tristeza y vergüenza a la forma de ver.

Me levanté de mi asiento para ir al baño y tanto la ida como en vuelta pasé por su lado, tuvo una buena mirada en él. Era pequeña, pequeña, un poco robusto, pero con las caderas perfectas, bien formadas. Sin embargo, la exuberante mayor parte de su cuerpo fueron las piernas, los tobillos gordos, vientres piernas perfectas, las rodillas llorando a ser tocado, casi a gritos, y maravillosamente bien formados muslos.

Era como si esa parte de su cuerpo no había sentido el peso del tiempo, mientras que el resto si languideció.

Su barbilla era redonda como una dona y su rostro muy lindo. Parecía borracho.
Llevaba zapatos de tacón alto, negro y brillante, en el brazo izquierdo tenía tres pulseras de oro falso y un vagabundo y un poco por encima de la muñeca de un negro de piel de topo, o cualquier otro muerto de mierda. Fumaba un cigarrillo largo y sus ojos estaban fijos en el vaso de chupito. Whisly parecía estar tomando junto con una botella de cerveza para suavizar el golpe.

Volví a mi asiento par, terminé con mi whisly otros y le preguntó el camarero. Cuando trajo la bebida le pregunté sobre las piernas hermosas.

- ¡Oh! - Gritó - es Lisa.
- Ella es muy hermosa, - me dijo - porque ninguno de los hombres sentados a tu lado?
- Es muy sencillo - respondió. - Ella es una locura.

Después que se fue. Tomé mi copa y me fui a Lisa. Me senté en el banco a su izquierda, encendió un cigarrillo y bebió un sorbo de mi bebida. Estaba parcialmente borracho. Llevé a mi whisly y lo convirtió a la vez. Llamé al camarero otra vez:

- Repita la dosis para los dos, y también traer dos cervezas.
Al oír esto, Lisa terminó con su bebida.
Cuando llegó la noticia, cada uno de nosotros tomó un sorbo de la suya. A continuación, los dos estábamos mirando el infinito.

Creo que unos segundos pasaron antes de que ella dijo:
- No me gusta la gente, ¿verdad?
- Tampoco.
Se secó su vaso y bebió un sorbo de cerveza. Yo hice lo mismo.
- Estoy loco - dijo.
- ¿Estás loco? -Preguntó.

Llamé al camarero
- Voy a pagar la próxima - dijo.

bebidas ordenadas, como si ese acto era la cosa más grande en su vida cotidiana como si fuera todo lo que había hecho en los últimos diez años o quince años. Cuando llegó me dijo:
- Gracias Lisa.
- Es un placer ... ¿Cuál es tu nombre?
- Hank.
- Es un placer, Hank.
- Tomó un sorbo y me miró extrañamente.
- ¿Estás tan loco como para romper el espejo de un bar?
- Creo que ya lo hizo.
- ¿Dónde estaba?
- El Orchoid habitación.
- La habitación es un lugar Orchoid estúpido y tonto.
- No puedo asistir a más.

Entonces Lisa, un trago, casi bebió la botella entera y suspiró.
- Hombre, yo voy a romper el espejo de este bar.
- Adelante - le sugerí.

Terminó con la bebida se levantó y cogió la botella de cerveza vacía. Se levantó y lo colocó detrás de la cabeza.
En un súbito impulso salté tratando de mantener el brazo, pero ya era demasiado tarde.

Una botella de cerveza, en un arco hacia abajo, voló hacia el espejo, mientras mi mente se apresuró a decir:
- No, no, mierda!
Hubo un sonido agudo de las cosas de última hora, y vidrios rotos voló como carámbanos gigantes. Por alguna extraña razón, las luces se apagaron.

Daba miedo, mágico y hermoso.
Terminé mi whisky.

En la oscuridad, vi algo blanco enfoque. Era el camarero, que había reducido la camisa y delantal. Se movía con rapidez.
- Su perra loca! - Gritó.
- Te voy a matar!

Lisa colocado detrás de mí. Busqué a tientas en la oscuridad y encontré a mi botella de cerveza. Cuando el camarero se acercó tuve la suerte de lo golpeó en la sien izquierda. Sin embargo, el muy cabrón no cayó, se quedó allí en la oscuridad con ese traje blanco. Mirando como uno de los porteros de los hoteles elegantes de espera para un taxi.

Pasé la botella a la mano izquierda y creo que pude sentir fracturar la sien derecha. Cayó hacia el mostrador, pero si se maneja con las dos manos en un rincón.
Fue así que por unos momentos y luego caer hacia la calle Alvarado.
Cuando llegó al piso de las luces se encendieron. Un momento raro, de verdad.
Por un instante parecía que todos en el bar se congelaron: los borrachos, yo, Lisa y el camarero.

Entonces me gritó:
- "¡Date prisa."
Lisa agarró del brazo y la arrastró hacia la salida. Un momento después estábamos en un callejón. Saqué.
- Ven, ven rápido!
- No puedo correr con estos saltos horribles.
- Entonces lárgate - me dijo.

Ella se detuvo, los sacó de los pies, me dio una, tiene otra, y corrió por el callejón. Cuando llegamos al otro lado, miré hacia atrás. No estaban siendo perseguidos.
- Muy bien. Ponga los zapatos.
Así lo hizo. Se puso la primera, se inclinó sobre mi hombro y empujó a la segunda. Se puso en pie temblando de que lo divino culo.
- Listo, ¡ya!
- ¿Dónde? -Preguntó ella.
- A mi casa.
- Estábamos en el final del callejón cerca de la uam esquina. Vi a un autobús, me levanté el brazo e hizo una señal: He tirado Lisa. El conductor había cerrado la puerta, pero parecía un buen chico, y volvió a abrir. Lisa y yo fuimos empujando boletos pagados. He intentado eso, pero yo no podía sentarse, se agarraba el asiento de atrás.
Él me miró bruscamente. A través de sus ojos vi una enorme irritación verde. Ella dijo:
- ¡Mierda! Yo quiero un taxi. Yo soy una dama. No camine este transporte mierda.
Lisa parecía un borracho gacela hermosa y la hizo girar su rebote culo maravilloso con el autobús.
- Yo quiero un taxi. Yo soy una dama. Fudição ¿Qué es esto?
- Bueno, es sólo cuatro cuadras de distancia.
- ¡Mierda! - Gritó - mierda!

El siguiente punto era la nuestra. Me dio la señal de stop. En realidad, acaba de sacar mierda de alambre que.El autobús se detuvo. Tomé la mano de Lisa, pasé mi brazo por la cintura y la ayudó a bajar. A través de la puerta abierta a IMNCI conductor me miró y dijo:
- Buena suerte amigo. Lo necesitará.
- Vete al carajo, estás celoso! - Respuesta.

Se rió, cerró la puerta y desapareció con el autobús en la oscuridad de la noche. Me gustó, parecía un tipo normal, sólo que mierda estaba conduciendo naufragio tratando de cambiar su suerte. Simplemente no podía, y algún día renunciar a todo, igual que yo.
Lisa parecía estar cada vez más borracho, y yo no estaba bien. Le ayudé a caminar con uno de mis brazos alrededor de su cintura y la otra sosteniendo su brazo derecho alrededor de mi cuello. Sus hermosas piernas estaban dando y entregando.
- Usted no tiene un coche de mierda?
- No.
- Usted es un idiota.
- Sí.
Poco a poco nos acercábamos a mi apartamento.
- Algo para beber ahí arriba? Si no no voy a ir allí.
- Muchas botellas de vino ... el mejor.
- Estoy enfermo - dijo, y se inclinó hacia la izquierda.

Yo estaba tan borracho que no podía mantenerlo. Caída. La suerte fue que había una valla de nuestro lado, cayó sobre ella. Caída de follaje, deshace y sólo se echó hacia atrás en la acera. Me levanté y miré hacia abajo. Lisa estaba allí, tirado en la luz de la luna, la mitad de su cuerpo sobre la cerca y la otra mitad en la acera. Su falda se levantó la hermosa exposición de las piernas más en el planeta. Las piernas brilló para mí.Me sorprendió, como si no creer lo que veía. He disfrutado casi. Sin embargo, pronto volvió a la realidad.
- Lisa! - Le dije a Lisa, por favor, despierta!
- Annh?
- La policía está en camino.

La levantó hacia arriba y llegar a la puerta principal del edificio. Fuimos directamente al ascensor ya estaba allí. Entramos. Mientras mantiene, apreté el botón de mi piso. La sección hizo un ruido y comenzó a subir.
- Echo de menos mi hijo. Quiero que mi bebé.
- Por supuesto, usted quiere, - me respondió.

Lo tomé de ahí y cuando abrí la puerta de los dos cayó de nuevo.
Lisa se puso de pie, dio una sacudida, se arregló la falda, agarró su bolso y se acercó para sentarse en una silla.

Empezó a meter por ahí, por ejemplo, el mercado de valores, en busca de sus cigarrillos. Desde fuera, el rojo de neón más de Los Angeles a través de la ventana.
Abrí una botella de vino y servir, el sonido de seductor de nylon matorrales y tranquila, ella cruzó las piernas.

En el asiento de adelante, tenía otra botella. Ya había llenado el vaso. Vació y se volvió a llenar.

Lisa me miró. Sus ojos eran cada vez más grande. Parecía que se estaba loco, loco. Luego dijo:
- ¿Crees que eres gran mierda? ¿Crees que eres el Sr. Van Bilderass?
Yo era la ropa interior, ropa interior manchada y desgarrada que nunca. Levantado. Me levanté y llamé a mis muslos.
- Oye, ¿cree que tiene buenas piernas? Mira a estos.
Me volvió a su silla y bebió otra taza y media. Ella sólo me miraba de esa manera. Sus ojos se hicieron más grandes y más grandes. Inmenso.
- ¿Crees que eres el Sr. Van Bilderass?
- ¡Claro!
Ella se agachó para recoger la botella de vino, que ya había cubierto y, mientras me miraba con sus ojos salvajes enorme, levantó la botella en la cabeza. Que loco está preparando para lanzar la botella de mierda en mí. Gritó:
- ¡Espera!
Se sentó con su brazo levantado. Traté de pensar rápido. Me dijo:
- Si quiere tirar la hija de puta, puede, pero si lo hace es bueno que me desmayé, de lo contrario voy a volver tirando de la cabeza.
Puso la botella con esa mirada loca. Suspiré con alivio. Fui allí, destapado el frasco, y llenó el vaso, y luego hizo lo mismo con el suyo. Volví a mi asiento y se sentó. Me sentí extrañamente bien.
- Ahora quiero levantar la falda de una más, pequeña perra.
Me sorprendió cuando lo hizo. La falda era ahora dos pulgadas por encima de la rodilla.
- Ahora dame una pulgada más. Nada más que eso.
Ella lo hizo.
Me levanté y se puso delante de él. Cada curva y la sangría de su cuerpo era grande. Me moría de ganas de lujuria. Sus zapatos brillaban.
- Torcedura de su tobillo. Levante la pierna de un bebé.
Lisa obedeció.
- Ahora aguanta! - Se detuvo.
- Ahora quiero más de una pulgada, vaya!
Lisa levantó un poco más.
- AAH, de modo que está bien!
Me volví una bestia sedienta, me arrodillé y le acarició las piernas, metí la mano entre los muslos y bajó hasta la rodilla. Ella me miró con picardía:
Eres un jodido estúpido. Loco.
Me agarró la pierna y la besó de zapatos de tacón alto. Luego subí hasta el tobillo.
- Usted no es un asesino, ¿verdad? - Pregunta.
- Uno de mis amigos fue atado por un hombre al pie de su cama y la apuñaló maricón. El tipo que lo destrozan todinha, pero ella gritó tan fuerte que las "ratas" escuchado y rescatado. Usted no es ...
- ¡Cállate!
Me levanté y poner el palo. Me escupió en la palma de su mano y comenzó a masaje.
- Usted es una puta mierda! -
Me dijo.
Seguí me frote natural. No tenía nada que perder.
- Otra pulgadas, muéstrame una pulgada más!
Seguí frotando.
- Además, muéstrame más, más!
Era el secreto y el truco y la penetración. La amplitud de los sentidos.
- Ahhh, Dios mío, sí!
El blanco y pastoso fluido, era el alivio de años de frustración y soledad. A medida que se alejó de que crema blanca en las piernas, de nylon en cada gota parecía sentir la angustia de los marginados, los olvidados y estar triste que estaba.
Ella gritó y saltó.
- Usted cerdo! Mierda sucia, idiota!
Lisa corrió hacia el cuarto de baño. Tengo la punta de mi camisa y me limpió con ella. Volví a la silla, llenó un vaso y encendió un cigarrillo. La cosa parecía tener sentido ahora.

Lisa regresó del baño, se sentó y se sirvió un vaso. Encendió un cigarrillo y bebió un trago profundo ella. Que el humo lentamente. Su voz estaba detrás de la nube blanca.
- Su miserable de mierda!
- Te quiero, puta! - Me dijo.
Volvió la cara hacia la pared.
Yo no sabía que era el comienzo de la más miserable de dos años de mi vida y poder.
- Esta es la única bebida que hay que ofrecer? Esta puta barata y vino?
- No está mal, Lisa. Lo que hago es pensar en que lo beba algo muy bonito, como cascadas, o una cuenta bancaria de quinientos dólares. O a veces me imagino que estoy en un castillo con un foso alrededor. O bien, pretender ser el dueño de una casa de bebidas finas.
- Tú, loco! - Ella dijo.
Y tenía toda la razón.

de Charles Bukowski Traducido por: Mario Campos

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A luz é como a água/ The light is like water García Márquez & Volpi

"(...) mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das



camas e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos 
tinham-se perdido na escuridão."







No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.

— De acordo — disse o pai —, vamos comprá-lo quando voltarmos a Cartagena.

Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que seus pais achavam.

— Não — disseram em coro. — Precisamos dele agora e aqui.

— Para começar — disse a mãe —, aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.

Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Índias havia um pátio com um atracadouro sobre a baía e um refúgio para dois iates grandes. Em Madri, porém, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas no final nem ele nem ela puderam dizer não, porque haviam prometido aos dois um barco a remos com sextante e bússola se ganhassem os louros do terceiro ano primário, e tinham ganhado. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à esposa, que era a mais renitente em pagar dívidas de jogo. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação,

— O barco está na garagem — revelou o pai na hora do almoço.— O problema é que não tem jeito de trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não tem mais lugar.

No entanto, na tarde do sábado seguinte, os meninos convidaram seus colegas para carregar o barco pelas escadas, e conseguiram levá-lo até o quarto de empregada.

— Parabéns — disse o pai. — E agora?

— Agora, nada - disseram os meninos. — A única coisa que a gente queria era ter o barco no quarto, e pronto.

Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.
Esta aventura fabulosa foi o resultado de uma leviandade minha quando participava de um seminário sobre a poesia dos utensílios domésticos. Totó me perguntou como era que a luz acendia só com a gente apertando um botão, e não tive coragem para pensar no assunto duas vezes.

— A luz é como a água — respondi. — A gente abre a torneira e sai.
E assim continuaram navegando nas noites de quarta-feira, aprendendo a mexer com o sextante e a bússola, até que os pais voltavam do cinema e os encontravam dormindo como anjos em terra firme. Meses depois, ansiosos por ir mais longe, pediram um equipamento de pesca submarina. Com tudo: máscaras, pés-de-pato, tanques e carabinas de ar comprimido.

— Já é ruim ter no quarto de empregada um barco a remos que não serve para nada.
— disse o pai — Mas pior ainda é querer ter além disso equipamento de mergulho.

— E se ganharmos a gardênia de ouro do primeiro semestre? — perguntou Joel.

— Não - disse a mãe, assustada. — Chega. O pai reprovou sua intransigência.

— É que estes meninos não ganham nem um prego por cumprir seu dever — disse ela —, mas por um capricho são capazes de ganhar até a cadeira do professor.
No fim, os pais não disseram que sim ou que não. Mas Totó e Joel, que tinham sido os últimos nos dois anos anteriores, ganharam em julho as duas gardênias de ouro e o reconhecimento público do diretor. Naquela mesma tarde, sem que tivessem tornado a pedir, encontraram no quarto os equipamentos em seu invólucro original. De maneira que, na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam O Último Tango em Paris, encheram o apartamento até a altura de duas braças, mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das camas, e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos tinham-se perdido na escuridão.
Na premiação final os irmãos foram aclamados como exemplo para a escola e ganharam diplomas de excelência. Desta vez não tiveram que pedir nada, porque os pais perguntaram o que queriam. E eles foram tão razoáveis que só quiseram uma festa em casa para os companheiros de classe.

O pai, a sós com a mulher, estava radiante. — É uma prova de maturidade — disse.

— Deus te ouça — respondeu a mãe.
Na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam A Batalha de Argel, as pessoas que passaram pela Castellana viram uma cascata de luz que caía de um velho edifício escondido entre as árvores. Saía pelas varandas, derramava-se em torrentes pela fachada, e formou um leito pela grande avenida numa correnteza dourada que iluminou a cidade até o Guadarrama.
Chamados com urgência, os bombeiros forçaram a porta do quinto andar, e encontraram a casa coberta de luz até o teto. O sofá e as poltronas forradas de pele de leopardo flutuavam na sala a diferentes alturas, entre as garrafas do bar e o piano de cauda com seu xale de Manilha que agitava-se com movimentos de asa a meia água como uma arraia de ouro. Os utensílios domésticos, na plenitude de sua poesia, voavam com suas próprias asas pelo céu da cozinha. Os instrumentos da banda de guerra, que os meninos usavam para dançar, flutuavam a esmo entre os peixes coloridos liberados do aquário da mãe, que eram os únicos que flutuavam vivos e felizes no vasto lago iluminado. No banheiro
flutuavam as escovas de dentes de todos, os preservativos do pai, os potes de cremes e a dentadura de reserva da mãe, e o televisor da alcova principal flutuava de lado, ainda ligado no último episódio do filme da meia-noite proibido para menores.
No final do corredor, flutuando entre duas águas, Totó estava sentado na popa do bote, agarrado aos remos e com a máscara no rosto, buscando o farol do porto até o momento em que houve ar nos tanques de oxigênio, e Joel flutuava na proa buscando ainda a estrela polar com o sextante, e flutuavam pela casa inteira seus 37 companheiros de classe, eternizados no instante de fazer xixi no vaso de gerânios, de cantar o hino da escola com a letra mudada por versos de deboche contra o diretor, de beber às escondidas um copo de brandy da garrafa do pai. Pois haviam aberto tantas luzes ao mesmo tempo que a casa tinha transbordado, e o quarto ano elementar inteiro da escola de São João Hospitalário tinha se afogado no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Em Madri de Espanha, uma cidade remota de verões ardentes e ventos gelados, sem mar nem rio, e cujos aborígines de terra firme nunca foram mestres na ciência de navegar na luz.
Dezembro de 1978.



"(...) Plunged as tame sharks under furniture and beds and rescued from the bottom of the light things that for years were lost in the darkness. "

At Christmas the boys made the request a rowboat.
- In line - said his father - we will buy it when we get back to Cartagena.
Toto, nine, and Joel, seven, were more determined than their parents thought.
- No - said in chorus. - We need it now and here.
- Getting started - said the mother - here there is no other navigable waters other than what comes out of the shower.
Both she and her husband were right. In the house of Cartagena had a patio with a dock of the bay and a refuge for two large yachts. In Madrid, however, lived in cramped fifth floor of number 47 Paseo de la Castellana. But in the end neither he nor she could say no, because the two had promised a rowboat with sextant and compass if they won the laurels of the third grade, and had won.Thus, the father bought it without telling his wife, who was most reluctant to pay gambling debts. It was a nice aluminum boat with a golden thread at the waterline,
- The boat is in the garage - the father revealed at lunchtime .- The problem is that there's no way to bring him in the elevator or the stairs in the garage and there's nowhere else.
However, in the afternoon the following Saturday, the boys invited their colleagues to load the boat up the stairs and managed to take him to the maid's room.
- Congratulations - the father said. - And now?
- Now, nothing - said the boys. - The only thing we wanted was to have the boat in the room, and ready.
On the evening of Wednesday, as on all Wednesdays, the parents went to the movies. The boys, lords and owners of the house, shut doors and windows and broke the lamp on a chandelier in the room. A stream of golden light and made fresh water began to leave the broken lamp, and left running until the level reached four feet. Then shut off the power, took the boat and sailed among the islands with delight of the home.
This fabulous adventure was the result of an indiscretion when I attended a seminar on the poetry of domestic appliances. Geek asked me how the light was lit only with us pressing a button, and I did not dare to think about it twice.
- Light is like water - I answered. - We open the tap and out.
This continued sailing on Wednesday nights, learning to work with the sextant and compass, until their parents returned from the cinema and found them sleeping like angels on land. Months later, eager to go further, asked for a spear fishing equipment. With everything: masks, duck-feet, tanks and air gun.
- It's bad to have the maid's room a rowboat that serves no purpose.
- Said the father - but even worse is wanting to have further diving equipment.
- And if we win the gold gardenia first semester? - Joel asked.
- No - said her mother, frightened. - Enough. The father chided his intransigence.
- Is that these children do not gain or a nail with his duty - she said - but on a whim are capable of winning the seat until the teacher.
In the end, the parents did not say yes or no. But Toto and Joel, who had been in the past two years earlier, in July won the two gold gardenias and public recognition of the director. That same afternoon, without their having made the request, found in the room housing the equipment in its original. So, on Wednesday next, while parents saw Last Tango in Paris, filled the apartment to a height of two fathoms, plunged as tame sharks under furniture and beds, and rescued from the bottom of things light who for years had been lost in the darkness.
In the final award the brothers were hailed as an example to school and earned diplomas of excellence. This time it did not have to ask anything, because the parents asked what they wanted. And they were so reasonable that only wanted a house party for their classmates.
The father, alone with his wife, was beaming. - It's a proof of maturity - he said.
- God hears you - the mother answered.
On the following Wednesday, while the parents were watching The Battle of Algiers, the people who passed through the Castellana saw a cascade of light that fell from an old building hidden among the trees. Get out the verandas, poured out in torrents in the facade, and formed a bed for the high street on a golden chain that lit the city until the Guadarrama.
Called urgently, firefighters forced the door on the fifth floor and found the house covered in a light to the ceiling. The sofa and armchairs upholstered in leopard skin floating in the room at different heights in between the bottles from the bar and the grand piano with her shawl of Manila that was flapping wing movements with half the water like a ray of gold. Household items, in the fullness of their poetry, with its own wings flew through the sky from the kitchen. The instruments of the marching band, boys used to dance, floating aimlessly among the colorful fish aquarium released from the mother, who were the ones that floated alive and happy in the vast lake lit. In banheiroflutuavam the toothbrushes of all, condoms father, the jars of creams and denture retained by the mother, and the TV's main alcove floated away, still on the last episode of the movie midnight forbidden to minors.
Down the hall, floating between two waters, Toto was sitting in the stern of the boat, grabbed the oars and with the mask on his face, searching for the lighthouse from the port to the moment when there was air in the tanks of oxygen, and Joel floated on the bowstill searching for the Polaris with the sextant, and floated through the house his 37 classmates, immortalized the moment to pee in the pot of geraniums, to sing the school song with the lyrics changed by verses of mockery against the director of drinking on the sly a bottle of brandy glass from the father. For they had opened so many lights at the same time that the house had flooded, and the entire fourth year elementary school of St. John Hospitaller had drowned on the fifth floor of number 47 Paseo de la Castellana. In Madrid of Spain, a remote town of burning summers and icy winds, no sea or river, and whose aboriginal land had never mastered the science of sailing in the light.

December 1978.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A VOLTA DO GUERREIRO / Monet & Drummond

Os homens que voltaram da guerra traziam feridas e pesadelos. Encontraram suas amadas indiferentes. Passara tanto tempo que algumas nem se lembravam deles, e muitas tinham estabelecido novos amores.

Uma, entretanto, permaneceu lembrada e fiel, e atirou-se com fúria passional aos braços do ex-guerreiro. Ele a repeliu, dizendo:
- Não quero mais ver a guerra diante de mim.
- Eu não sou a guerra, sou o amor, querido ? respondeu-lhe a mulher, assustada.
- Você é a imagem da guerra, você me agarrou como o inimigo na luta corpo a corpo, eu não quero saber de você.
- Então farei carícias lentas e suaves.
- O inimigo também passa a mão de leve pelo corpo do soldado caído, para tirar o que houver no uniforme.
- Ficarei quieta, não farei nada.
- Não fazer nada é a atitude mais suspeita e mais perigosa do inimigo, que nos observa para nos atacar à traição.

Separaram-se para sempre.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O País das Quimeras*




Arrependera-se Catão de haver ido algumas vezes por mar quando podia ir por terra. O virtuoso romano tinha razão. Os carinhos de Anfitrite são um tanto raivosos, e muitas vezes funestos. Os feitos marítimos dobram de valia por esta circunstância, e é também por esta circunstância que se esquivam de navegar as almas pacatas, ou, para falar mais decentemente, os espíritos prudentes e seguros.

Mas, para justificar o provérbio que diz: debaixo dos pés se levantam os trabalhos — a via terrestre não é absolutamente mais segura que a via marítima, e a história dos caminhos de ferro, pequena embora, conta já não poucos e tristes episódios.

Absorto nestas e noutras reflexões estava o meu amigo Tito, poeta aos vinte anos, sem dinheiro e sem bigode, sentado à mesa carunchosa do trabalho, onde ardia silenciosamente uma vela.
Tito não é nem alto nem baixo, o que equivale a dizer que é de estatura mediana, a qual estatura é aquela que se pode chamar francamente elegante na minha opinião. Possuindo um semblante angélico, uns olhos meigos e profundos, o nariz descendente legítimo e direto do de Alcibíades, a boca graciosa, a fronte larga como o verdadeiro trono do pensamento, Tito pode servir de modelo à pintura e de objeto amado aos corações de quinze e mesmo de vinte anos.


Como as medalhas, e como todas as coisas deste mundo de compensações, Tito tem um reverso. Oh! triste coisa que é o reverso das medalhas! Podendo ser, do colo para cima, modelo à pintura, Tito é uma lastimosa pessoa no que toca ao resto. Pés prodigiosamente tortos, pernas zambras, tais são os contras que a pessoa do meu amigo oferece a quem se extasia diante dos magníficos prós da cara e da cabeça. Parece que a natureza se dividira para dar a Tito o que tinha de melhor e o que tinha de pior, e pô-lo na miserável e desconsoladora condição do pavão, que se enfeita e contempla radioso, mas cujo orgulho se abate e desfalece quando olha para as pernas e para os pés.


No moral Tito apresenta o mesmo aspecto duplo do físico. Não tem vícios, mas tem fraquezas de caráter que quebram, um tanto ou quanto, as virtudes que o enobrecem. É bom e tem a virtude evangélica da caridade; sabe, como o divino Mestre, partir o pão da subsistência e dar de comer ao faminto, com verdadeiro júbilo de consciência e de coração. Não consta, além disso, que jamais fizesse mal ao mais impertinente bicho, ou ao mais insolente homem, duas coisas idênticas, nos curtos dias da sua vida. Pelo contrário, conta-se que a sua piedade e bons instintos o levaram uma vez a ficar quase esmagado, procurando salvar da morte uma galga que dormia na rua, e sobre a qual ia quase passando um carro. A galga, salva por Tito, afeiçoou-se-lhe tanto que nunca mais o deixou; à hora em que o vemos absorto em pensamentos vagos está ela estendida sobre a mesa a contemplá-lo grave e sisuda.


Só há que censurar em Tito as fraquezas de caráter, e deve-se crer que elas são filhas mesmo das suas virtudes. Tito vendia outrora as produções da sua musa, não por meio de uma permuta legítima de livro e moeda, mas por um meio desonroso e nada digno de um filho de Apolo. As vendas que fazia eram absolutas, isto é, trocando por dinheiro os seus versos, o poeta perdia o direito da paternidade sobre essas produções. Só tinha um freguês; era um sujeito rico, maníaco pela fama de poeta, e que, sabendo da facilidade com que Tito rimava, apresentou-se um dia no modesto albergue do poeta e entabulou a negociação por estes termos:
— Meu caro, venho propor-lhe um negócio da China.
— Pode falar, respondeu Tito.
— Ouvi dizer que você fazia versos… É verdade?
Tito conteve-se a custo diante da familiaridade do tratamento, e respondeu


— É verdade.


— Muito bem. Proponho-lhe o seguinte: compro-lhe por bom preço todos os seus versos, não os feitos, mas os que fizer de hoje em diante, com a condição de que os hei de dar à estampa como obra da minha lavra. Não ponho outras condições ao negócio: advirto-lhe, porém, que prefiro as odes e as poesias de sentimento. Quer?


Quando o sujeito acabou de falar, Tito levantou-se e com um gesto mandou-o sair. O sujeito pressentiu que, se não saísse logo, as coisas poderiam acabar mal. Preferiu tomar o caminho da porta, dizendo entre dentes: “Hás de procurar-me, deixa estar!”


O meu poeta esqueceu no dia seguinte a aventura da véspera, mas os dias passaram-se e as necessidades urgentes apresentaram-se à porta com o olhar suplicante e as mãos ameaçadoras. Ele não tinha recursos; depois de uma noite atribulada, lembrou-se do sujeito, e tratou de procurá-lo; disse-lhe quem era, e que estava disposto a aceitar o negócio; o sujeito, rindo-se com um riso diabólico, fez o primeiro adiantamento, sob a condição de que o poeta lhe levaria no dia seguinte uma ode aos Polacos. Tito passou a noite a arregimentar palavras sem idéia, tal era seu estado, e no dia seguinte levou a obra ao freguês, que achou boa e dignou-se apertar-lhe a mão.


Tal é a face moral de Tito. A virtude de ser pagador em dia levava-o a mercar com os dons de Deus; e ainda assim vemos nós que ele resistiu, e só foi vencido quando se achou com a corda ao pescoço.


A mesa à qual Tito estava encostado era um traste velho e de lavor antigo; herdara-a de uma tia que lhe havia morrido fazia dez anos. Um tinteiro de osso, uma pena de ave, algum papel, eis os instrumentos de trabalho de Tito. Duas cadeiras e uma cama completavam a sua mobília. Já falei na vela e na galga.


À hora em que Tito se engolfava em reflexões e fantasias era noite alta. A chuva caía com violência, e os relâmpagos que de instante a instante rompiam o céu deixavam ver o horizonte pejado de nuvens negras e túmi-das. Tito nada via, porque estava com a cabeça encostada nos braços, e estes sobre a mesa; e é provável que não ouvisse, porque se entretinha em refletir nos perigos que oferecem os diferentes modos de viajar.


Mas qual o motivo destes pensamentos em que se engolfava o poeta? É isso que eu vou explicar à legitima curiosidade dos leitores. Tito, como todos os homens de vinte anos, poetas e não poetas, sentia-se afetado da doença do amor. Uns olhos pretos, um porte senhoril, uma visão, uma criatura celestial, qualquer coisa por este teor, havia influído por tal modo no coração de Tito, que o pusera, pode-se dizer, à beira da sepultura. O amor em Tito começou por uma febre; esteve três dias de cama, e foi curado (da febre e não do amor) por uma velha da vizinhança, que conhecia o segredo das plantas virtuosas, e que pôs o meu poeta de pé, com o que adquiriu mais um título à reputação de feiticeira, que os seus milagrosos curativos lhe haviam granjeado.


Passado o período agudo da doença, ficou-lhe este resto de amor, que, apesar da calma e da placidez, nada perde da sua intensidade. Tito estava ardentemente apaixonado, e desde então começou a defraudar o freguês das odes, subtraindo-lhe algumas estrofes inflamadas, que dedicava ao objeto dos seus íntimos pensamentos, tal qual como aquele sr. d’Ofayel, dos amores leais e pudicos, com quem se pareceu, não na sensaboria dos versos, mas no infortúnio amoroso.


O amor contrariado, quando não leva a um desdém sublime da parte do coração, leva à tragédia ou à asneira. Era nesta alternativa que se debatia o espírito do meu poeta. Depois de haver gasto em vão o latim das musas, aventurou uma declaração oral à dama dos seus pensamentos. Esta ouviu-o com dureza d’alma, e quando ele acabou de falar disse-lhe que era melhor voltar à vida real, e deixar musas e amores, para cuidar do alinho da própria pessoa. Não presuma o leitor que a dama de quem lhe falo tinha a vida tão desenvolta como a língua. Era, pelo contrário, um modelo da mais seráfica pureza e do mais perfeito recato de costumes; recebera a educação austera de seu pai, antigo capitão de milícias, homem de incrível boa fé, que, neste século desabusado, ainda acreditava em duas coisas: nos programas políticos e nas cebolas do Egito.


Desenganado de uma vez nas suas pretensões, Tito não teve força de ânimo para varrer da memória a filha do militar: e a resposta crua e desapiedada da moça estava-lhe no coração como um punhal frio e penetrante. Tentou arrancá-lo, mas a lembrança, viva sempre, como ara de Vesta, trazia-lhe as fatais palavras ao meio das suas horas mais alegres ou menos tristes da sua vida, como aviso de que a sua satisfação não podia durar e que a tristeza era o fundo real dos seus dias. Era assim que os egípcios mandavam pôr um sarcófago no meio de um festim, como lembrança de que a vida é transitória, e que só na sepultura existe a grande e eterna verdade.


Quando, depois de voltar a si, Tito conseguiu encadear duas idéias e tirar delas uma conseqüência, dois projetos se lhe apresentaram, qual mais próprio a granjear-lhe a vilta de pusilânime; um concluía pela tragédia, outro pela asneira; triste alternativa dos corações não compreendidos! O primeiro desses projetos era simplesmente deixar este mundo; o outro, limitava-se a uma viagem, que o poeta faria por mar ou por terra, a fim de deixar por algum tempo a capital. Já o poeta abandonava o primeiro por achá-lo sanguinolento e definitivo; o segundo parecia-lhe melhor, mais consentâneo com a sua dignidade e sobretudo com os seus instintos de conservação. Mas qual o meio de mudar de sítio? Tomaria por terra? tomaria por mar? Qualquer destes dois meios tinha seus inconvenientes. Estava o poeta nestas averiguações, quando ouviu que batiam à porta três pancadinhas. Quem seria? Quem poderia ir procurar o poeta àquela hora? Lembrou-se que tinha umas encomendas do homem das odes e foi abrir a porta disposto a ouvir resignado a muito plausível sarabanda que ele lhe vinha naturalmente pregar. Mas, ó pasmo! mal o poeta abriu a porta, eis que uma sílfide, uma criatura celestial, vaporosa, fantástica, trajando vestes alvas, nem bem de pano, nem bem de névoas, uma coisa entre as duas espécies, pés alígeros, rosto sereno e insinuante, olhos negros e cintilantes, cachos louros do mais leve e delicado cabelo, a caírem-lhe graciosos pelas espáduas nuas, divinas, como as tuas, ó Afrodite! eis que uma criatura assim invade o aposento do poeta e, estendendo a mão, ordena-lhe que feche a porta e tome assento à mesa.


Tito estava assombrado. Maquinalmente voltou ao seu lugar sem tirar os olhos da visão. Esta sentou-se defronte dele e começou a brincar com a galga que dava mostras de não usado contentamento. Passaram-se nisto dez minutos; depois do que a peregrina singular criatura cravando os seus olhos nos do poeta, perguntou-lhe com uma doçura de voz nunca ouvida:


— Em que pensas, poeta? Pranteias algum amor mal parado? Sofres com a injustiça dos homens? Dói-te a desgraça alheia, ou é a própria que te sombreia a fronte?


Esta indagação era feita de um modo tão insinuante que Tito sem inquirir o motivo de curiosidade, respondeu imediatamente:


— Penso na injustiça de Deus.


— É contraditória a expressão; Deus é a justiça.


— Não é. Se fosse teria repartido irmãmente a ternura pelos corações e não consentiria que um ardesse inutilmente pelo outro. O fenômeno da simpatia devia ser sempre recíproco, de maneira que a mulher não pudesse olhar com frieza para o homem, quando o homem levantasse olhos de amor para ela.


— Não és tu quem fala, poeta. É o teu amor-próprio ferido pela má paga do teu afeto. Mas de que te servem as musas? Entra no santuário da poesia, engolfa-te no seio da inspiração, esquecerás aí a dor da chaga que o mundo te abriu.


— Coitado de mim, respondeu o poeta, que tenho a poesia fria, e apagada a inspiração!


— De que precisas tu para dar vida à poesia e à inspiração?


— Preciso do que me falta… e falta-me tudo.


— Tudo? És exagerado. Tens o selo com que Deus te distinguiu dos outros homens e isso te basta. Cismavas em deixar esta terra?


— É verdade.


— Bem; venho a propósito. Queres ir comigo?


— Para onde?


— Que importa? Queres vir?


— Quero. Assim me distrairei. Partiremos amanhã. É por mar, ou por terra?


— Nem amanhã, nem por mar, nem por terra; mas hoje, e pelo ar.


Tito levantou-se e recuou. A visão levantou-se também.


— Tens medo? perguntou ela.


— Medo, não, mas…


— Vamos. Faremos uma deliciosa viagem.


— Vamos.


Não sei se Tito esperava um balão para a viagem aérea a que o convidava a inesperada visita; mas, o que é certo, é que os seus olhos se arregalaram prodigiosamente quando viu abrirem-se das espáduas da visão duas longas e brancas asas que ela começou a agitar e das quais caía uma poeira de ouro.


— Vamos, disse a visão.


Tito repetiu maquinalmente:


— Vamos!


E ela tomou-o nos braços, subiu com ele até o teto, que se rasgou, e passaram ambos, visão e poeta. A tempestade tinha, como por encanto, cessado; estava o céu limpo, transparente, luminoso, verdadeiramente celeste, enfim. As estrelas fulgiam com a sua melhor luz, e um luar branco e poético caía sobre os telhados das casas e sobre as flores e a relva dos campos.Os dois subiram.


Durou a ascensão algum tempo. Tito não podia pensar; ia atordoado, e subia sem saber para onde, nem a razão por quê. Sentia que o vento agitava os cabelos louros da visão, e que eles lhe batiam docemente na face, do que resultava uma exalação celeste que embriagava e adormecia. O ar estava puro e fresco. Tito, que se havia distraído algum tempo da ocupação das musas no estudo das leis físicas, contava que, naquele subir continuado, breve chegariam a sentir os efeitos da rarefação da atmosfera. Engano dele! Subiam sempre, e muito, mas a atmosfera conservava-se sempre a mesma, e quanto mais ele subia melhor respirava.


Isto passou rápido pela mente do poeta. Como disse, ele não pensava; ia subindo sem olhar para a terra. E para que olharia para a terra? A visão não podia conduzi-lo senão ao céu.


Em breve começou Tito a ver os planetas fronte por fronte. Era já sobre a madrugada. Vênus, mais pálida e loura que de costume, ofuscava as estrelas com o seu clarão e com a sua beleza. Tito teve um olhar de admiração para a deusa da manhã. Mas subia, subiam sempre. Os planetas passavam à ilharga do poeta, como se fossem corcéis desenfreados. Afinal penetraram em uma região inteiramente diversa das que haviam atravessado naquela assombrosa viagem. Tito sentia expandir-se-lhe a alma na nova atmosfera. Seria aquilo o céu? O poeta não ousava perguntar, e mudo esperava o termo da viagem. À proporção que penetravam nessa região ia-se a alma do poeta rompendo em júbilo; daí a algum tempo entravam em um planeta; a fada depôs o poeta e começaram a fazer o trajeto a pé.


Caminhando, os objetos, até então vistos através de um nevoeiro, tomavam aspecto de coisas reais. Tito pôde ver então que se achava em uma nova terra, a todos os respeitos estranha: o primeiro aspecto vencia ao que oferece a poética Istambul ou a poética Nápoles. Mais entravam, porém, mais os objetos tomavam o aspecto da realidade. Assim chegaram à grande praça onde estavam construídos os reais paços. A habitação régia era, por assim dizer, uma reunião de todas as ordens arquitetônicas, sem excluir a chinesa, sendo de notar que esta última fazia não mediana despesa na estrutura do palácio.


Tito quis sair da ânsia em que estava por saber em que país acabava de entrar, e aventurou uma pergunta à sua companheira.


— Estamos no país das Quimeras, respondeu ela.


— No país das Quimeras?


— Das Quimeras. País para onde viaja três quartas partes do gênero humano, mas que não se acha consignado nas tábuas da ciência.


Tito contentou-se com a explicação. Mas refletiu sobre o caso. Por que motivo iria parar ali? A que era levado? Estava nisto quando a fada o advertiu de que eram chegados à porta do palácio. No vestíbulo havia uns vinte ou trinta soldados que fumavam em grosso cachimbo de escuma do mar, e que se embriagavam com outros tantos padixás, na contemplação dos novelos de fumo azul e branco que lhe saíam da boca. À entrada dos dois houve continência militar. Subiram pela grande escadaria, e foram ter aos andares superiores.


— Vamos falar aos soberanos, disse a companheira do poeta. Atravessaram muitas salas e galerias. Todas as paredes, como no poema de Dinis, eram forradas de papel prateado e lantejoulas.


Afinal penetraram na grande sala. O gênio das bagatelas, de que fala Elpino, estava sentado em um trono de casquinha, tendo de ornamento dois pavões, um de cada lado. O próprio soberano tinha por coifa um pavão vivo, atado pelos pés a uma espécie de solidéu, maior que os dos nossos padres, o qual por sua vez ficava firme na cabeça por meio de duas largas fitas amarelas, que vinham atar-se debaixo dos reais queixos. Coifa idêntica adornava a cabeça dos gênios da corte, que correspondem aos viscondes deste mundo e que cercavam o trono do brilhante rei. Todos aqueles pavões, de minuto a minuto, armavam-se, apavoneavam-se, e davam os guinchos do costume.


Quando Tito entrou na grande sala pela mão da visão, houve um murmúrio entre os fidalgos quiméricos. A visão declarou que ia apresentar um filho da terra. Seguiu-se a cerimônia da apresentação, que era uma enfiada de cortesias, passagens e outras coisas quiméricas, sem excluir a formalidade do beija-mão. Não se pense que Tito foi o único a beijar a mão ao gênio soberano; todos os presentes fizeram o mesmo, porque, segundo Tito ouviu depois, não se dá naquele país o ato mais insignificante sem que esta formalidade seja preenchida.


Depois da cerimônia da apresentação perguntou o soberano ao poeta que tratamento tinha na terra, para dar-se-lhe cicerone correspondente.


— Eu, disse Tito, tenho, se tanto, uma triste Mercê.


— Só isso? Pois há de ter o desprazer de ser acompanhado pelo cicerone comum. Nós temos cá a Senhoria, a Excelência, a Grandeza, e outras mais; mas, quanto à Mercê, essa, tendo habitado algum tempo este país, tornou-se tão pouco útil que julguei melhor despedi-la.


A este tempo a Senhoria e a Excelência, duas criaturas empertigadas, que se haviam aproximado do poeta, voltaram-lhe as costas, encolhendo os ombros e deitando-lhe um olhar de través com a maior expressão de desdém e pouco caso.


Tito quis perguntar à sua companheira o motivo deste ato daquelas duas quiméricas pessoas; mas a visão puxou-lhe pelo braço, e fez-lhe ver com um gesto que estava desatendendo ao Gênio das Bagatelas, cujos sobrolhos se contraíram, como dizem os poetas antigos que se contraíam os de Júpiter Tonante.


Neste momento entrou um bando de moçoilas frescas, lépidas, bonitas e louras… oh! mas de um louro que se não conhece entre nós, os filhos da terra! Entraram elas a correr, com a agilidade de andorinhas que voam; e depois de apertarem galhofeiramente a mão aos gênios da corte foram ao Gênio soberano, diante de quem fizeram umas dez ou doze mesuras.


Quem eram aquelas raparigas? O meu poeta estava de boca aberta. Indagou da sua guia, e soube. Eram as Utopias e as Quimeras que iam da terra, onde haviam passado a noite na companhia de alguns homens e mulheres de todas as idades e condições.


As Utopias e as Quimeras foram festejadas pelo soberano, que se dignou sorrir-lhes e bater-lhes na face. Elas alegres e risonhas receberam os carinhos reais como coisa que lhes era devida; e depois de dez ou doze mesuras, repetição das anteriores, foram-se da sala, não sem abraçarem ou beliscarem o meu poeta, que olhava espantado para elas sem saber por que se tornara objeto de tanta jovialidade. O seu espanto crescia de ponto quando ouvia a cada uma delas esta expressão muito usada nos bailes de máscaras: Eu te conheço!


Depois que saíram todas, o Gênio fez um sinal, e toda a atenção concentrou-se no soberano, a ver o que ia sair-lhe dos lábios. A expectativa foi burlada, porque o gracioso soberano apenas com um gesto indicou ao cicerone comum o misero hóspede que daqui tinha ido. Seguiu-se a cerimônia da saída, que durou longos minutos, em virtude das mesuras, cortesias e beija-mão do estilo.


Os três, o poeta, a fada condutora e o cicerone, passaram à sala da rainha. A real senhora era uma pessoa digna de atenção a todos os respeitos; era imponente e graciosa; trajava vestido de gaze e roupa da mesma fazenda, borzeguins de cetim alvo, pedras finas de todas as espécies e cores, nos braços, no pescoço e na cabeça; na cara trazia posturas finíssimas, e com tal arte, que parecia haver sido corada pelo pincel da natureza; dos cabelos recendiam ativos cosméticos e delicados óleos.


Tito não disfarçou a impressão que lhe causava um todo assim. Voltou-se para a companheira de viagem e perguntou como se chamava aquela deusa.


— Não a vê? respondeu a fada; não vê as trezentas raparigas que trabalham em torno dela? Pois então? é a Moda, cercada de suas trezentas belas, caprichosas filhas.


A estas palavras Tito lembrou-se do Hissope. Não duvidava já de que estava no país das Quimeras; mas, raciocinou ele, para que Dinis falasse de algumas destas coisas, é preciso que cá tivesse vindo e voltasse, como está averiguado. Portanto, não devo recear de cá ficar morando eternamente. Descansado por este lado, passou a atentar para os trabalhos das companheiras da rainha; eram umas novas modas que se estavam arranjando, para vir a este mundo substituir as antigas.


Houve apresentação com o cerimonial do estilo. Tito estremeceu quando pousou os lábios na mão fina e macia da soberana; esta não reparou, porque tinha na mão esquerda um psyché, onde se mirava de momento em momento.


Impetraram os três licença para continuar a visita do palácio e seguiram pelas galerias e salas do alcáçar. Cada sala era ocupada por um grupo de pessoas, homens ou mulheres, algumas vezes mulheres e homens, que se ocupavam nos diferentes misteres de que estavam incumbidos pela lei do país, ou por ordem arbitrária do soberano. Tito percorria essas diversas salas com o olhar espantado, estranhando o que via, aquelas ocupações, aqueles costumes, aqueles caracteres. Em uma das salas um grupo de cem pessoas ocupava-se em adelgaçar uma massa branca, leve e balofa. Naturalmente este lugar é a ucharia, pensou Tito; estão preparando alguma iguaria singular para o almoço do rei. Indagou do cicerone se havia acertado. O cicerone respondeu:


— Não, senhor; estes homens estão ocupados em preparar massa cerebral para um certo número de homens de todas as classes: estadistas, poetas, namorados, etc.; serve também a mulheres. Esta massa é especialmente para aqueles que, no seu planeta, vivem com verdadeiras disposições do nosso país, aos quais fazemos presentes deste elemento constitutivo.


— É massa quimérica?


— Da melhor que se há visto até hoje.


— Pode ver-se?


O cicerone sorriu-se; chamou o chefe da sala, a quem pediu um pouco de massa. Este foi com prontidão ao depósito e tirou uma porção que entregou a Tito. Mal o poeta a tomou das mãos do chefe desfez-se a massa, como se fora composta de fumo. Tito ficou confuso; mas o chefe, batendo-lhe no ombro:


— Vá descansado, disse; nós temos à mão matéria-prima; é da nossa própria atmosfera que nos servimos; e a nossa atmosfera não se esgota.


Este chefe tinha uma cara insinuante, mas, como todos os quiméricos, era sujeito a abstrações, de modo que Tito não pôde arrancar-lhe mais uma palavra, porque ele, ao dizer as últimas, começou a olhar para o ar e a contemplar o vôo de uma mosca.


Este caso atraiu os companheiros que se chegaram a ele e mergulharam-se todos na contemplação do alado inseto.


Os três continuaram caminho.


Mais adiante era uma sala onde muitos quiméricos, à roda de mesas, discutiam os diferentes modos de inspirar aos diplomatas e diretores deste nosso mundo os pretextos para encher o tempo e apavorar os espíritos com futilidades e espantalhos. Esses homens tinham ares de finos e espertos. Havia ordem do soberano para não se entrar naquela sala em horas de trabalho; um guarda estava à porta. A menor distração daquele congresso seria considerada uma calamidade pública.


Andou o meu poeta de sala em sala, de galeria em galeria, aqui, visitando um museu, ali, um trabalho ou um jogo; teve tempo de ver tudo, de tudo examinar, com atenção e pelo miúdo. Ao passar pela grande galeria que dava para a praça, viu que o povo, reunido embaixo das janelas, cercava uma forca. Era uma execução que ia ter lugar. Crime de morte? perguntou Tito, que tinha a nossa legislação na cabeça. Não, responderam-lhe, crime de lesa-cortesia. Era um quimérico que havia cometido o crime de não fazer a tempo e com graça uma continência; este crime é considerado naquele país como a maior audácia possível e imaginável. O povo quimérico contemplou a execução como se assistisse a um espetáculo de saltimbancos, entre aplausos e gritos de prazer.


Entretanto era hora do almoço real. À mesa do gênio soberano só se sentavam o rei, a rainha, dois ministros, um médico e a encantadora fada que havia levado o meu poeta àquelas alturas. A fada, antes de sentar-se à mesa, implorou do rei a mercê de admitir Tito ao almoço; a resposta foi afirmativa; Tito tomou assento. O almoço foi o mais sucinto e rápido que é possível imaginar. Durou alguns segundos, depois do que todos se levantaram, e abriu-se mesa para o jogo das reais pessoas; Tito foi assistir ao jogo; em roda da sala havia cadeiras, onde estavam sentadas as Utopias e as Quimeras; às costas dessas cadeiras empertigavam-se os fidalgos quiméricos, com os seus pavões e as suas vestiduras de escarlate. Tito aproveitou a ocasião para saber como é que o conheciam aquelas assanhadas raparigas. Encostou-se a uma cadeira e indagou da Utopia que se achava nesse lugar. Esta impetrou licença, e depois das formalidades do costume, retirou-se a uma das salas com o poeta, e aí perguntou-lhe :


— Pois deveras não sabes quem somos? Não nos conheces?


— Não as conheço, isto é, conheço-as agora, e isso dá-me verdadeiro pesar, porque quisera tê-las conhecido há mais tempo.


— Oh! sempre poeta!


— É que deveras são de uma gentileza sem rival. Mas onde é que me viram?


— Em tua própria casa.


— Oh!


— Não te lembras? À noite, cansado das lutas do dia, recolhes-te ao aposento, e aí, abrindo velas ao pensamento, deixas-te ir por um mar sereno e calmo. Nessa viagem acompanham-te algumas raparigas… somos nós, as Utopias, nós, as Quimeras.


Tito compreendeu afinal uma coisa que se lhe estava a dizer havia tanto tempo. Sorriu-se, e cravando os seus belos e namorados olhos nos da Utopia que tinha diante de si, disse:


— Ah! sois vós, é verdade! Consoladora companhia que me distrai de todas as misérias e pesares. É no seio de vós que eu enxugo as minhas lágrimas. Ainda bem! Conforta-me ver-vos a todas de face e embaixo de forma palpável.


— E queres saber, tornou a Utopia, quem nos leva a todas para tua companhia? Olha, vê.


O poeta voltou a cabeça e viu a peregrina visão, sua companheira de viagem.


— Ah! é ela! disse o poeta.


— É verdade. É a loura Fantasia, a companheira desvelada dos que pensam e dos que sentem.


A Fantasia e a Utopia entrelaçaram-se as mãos e olhavam para Tito. Este, como que enlevado, olhava para ambas. Durou isto alguns segundos; o poeta quis fazer algumas perguntas, mas quando ia falar reparou que as duas se haviam tornado mais delgadas e vaporosas. Articulou alguma coisa; porém, vendo que elas iam ficando cada vez mais transparentes, e distinguindo-lhes já pouco as feições, soltou estas palavras: — Então! que é isto? por que se desfazem assim? — Mais e mais as sombras desapareciam, o poeta correu à sala do jogo; espetáculo idêntico o esperava; era pavoroso; todas as figuras se desfaziam como se fossem feitas de névoa. Atônito e palpitante, Tito percorreu algumas galerias e afinal saiu à praça; todos os objetos estavam sofrendo a mesma transformação. Dentro de pouco Tito sentiu que lhe faltava apoio aos pés e viu que estava solto no espaço.


Nesta situação soltou um grito de dor.


Fechou os olhos e deixou-se ir como se tivesse de encontrar por termo de viagem a morte.


Era na verdade o mais provável. Passados alguns segundos, Tito abriu os olhos e viu que caía perpendicularmente sobre um ponto negro que lhe parecia do tamanho de um ovo. O corpo rasgava como um raio o espaço. O ponto negro cresceu, cresceu, e cresceu até fazer-se do tamanho de uma esfera. A queda do poeta tinha alguma coisa de diabólica; ele soltava de vez em quando um gemido; o ar, batendo-lhe nos olhos, obrigava-o a fechá-los de instante a instante. Afinal, o ponto negro que havia crescido, continuava a crescer, até aparecer ao poeta com o aspecto da terra. É a terra! disse Tito consigo.


Creio que não haverá expressão humana para mostrar a alegria que sentiu aquela alma, perdida no espaço, quando reconheceu que se aproximava do planeta natal. Curta foi a alegria. Tito pensou, e pensou bem, que naquela velocidade quando tocasse em terra seria para nunca mais levantar. Teve um calafrio: viu a morte diante de si, e encomendou a alma a Deus. Assim foi, foi, ou antes, veio, veio, até que — milagre dos milagres! — caiu sobre uma praia, de pé, firme como se não houvesse dado aquele infernal salto.


A primeira impressão, quando se viu em terra, foi de satisfação; depois tratou de ver em que região do planeta se achava; podia ter caído na Sibéria ou na China; verificou que se achava a dois passos de casa. Apressou-se o poeta e voltar aos seus pacíficos lares.


A vela estava gasta; a galga, estendida sob a mesa, tinha os olhos fitos na porta. Tito entrou e atirou-se sobre a cama, onde adormeceu, refletindo no que lhe acabava de acontecer.


Desde então Tito possui um olhar de lince, e diz, à primeira vista, se um homem traz na cabeça miolos ou massa quimérica. Devo declarar que poucos encontra que não façam provisão desta última espécie. Diz ele, e tenho razões para crer, que eu entro no número das pouquíssimas exceções. Em que pese aos meus desafeiçoados, não posso retirar a minha confiança de um homem que acaba de fazer tão pasmosa viagem, e que pôde olhar de face o trono cintilante do rei das Bagatelas.


Machado de Assis


Publicado Originalmente em O Futuro (1862)


* Este conto foi modificado anos depois, recebendo o título “Uma Excursão Milagrosa