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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O elogio da diversidade de Moacyr Scliar

Entre as impressionantes mudanças ocorridas no Brasil, há uma que mereceria um estudo especial, quem sabe até uma tese de mestrado ou doutorado. Nos últimos anos, descobrimos os números, o que é uma verdadeira revolução para um país que, durante muito tempo, acreditava sobretudo na retórica, nas palavras, domínio de uns poucos privilegiados. Agora, não. Agora, passamos a ter como divisa a frase do cientista Lord Kelvin, segundo a qual tudo que é verdadeiro deve ser expresso em algarismos. Todos os dias recebemos pela mídia uma verdadeira enxurrada numérica, indicadores econômicos, sociais, de saúde. E disso resultam também rankings, lista dos melhores estados, ou municípios, classificados pelo sucesso obtido em áreas que vão desde a produção industrial até o nível educacional.

Nessas várias listas há uma trinca constante, formada por Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Distrito Federal. Peguem, por exemplo, a expectativa de vida, o número de anos que podemos esperar viver. Em primeiro lugar estão o Distrito Federal e Santa Catarina, com 75,8 anos, e logo em seguida, o RS, com 75,5 anos. Tomem a mortalidade infantil. Por causa da fragilidade das crianças, esse é, infelizmente, o indicador clássico para avaliar a situação de saúde. Pois nos quatro melhores estados (São Paulo entra aí também) está a nossa trinca, RS, SC, DF, todos bem abaixo da média nacional.

"O emigrante é um cara que luta: luta para sobreviver, luta por melhores condições de vida, luta para educar seus filhos. E frequentemente vence".

Vamos para uma outra área, a educacional. Recentemente foram divulgados os dados do Pisa (Programme for International Students Assesment, Programa Internacional de Avaliação de Alunos) introduzido pela Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico, que analisou a situação da educação em 65 países, no que se refere a ciências, matemática e leitura. No caso do Brasil, quem encontramos no topo do ranking dos estados? Distrito Federal, Santa Catarina, Rio Grande do Sul.

Tomemos um indicador mais abrangente, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), composto por expectativa de vida, alfabetização e produto interno per capita; ou seja, saúde, educação, economia. Nos cinco estados mais bem situados (aí entram São Paulo e Rio de Janeiro), está de novo a nossa trinca, DF, SC, RS.

Agora, o que terão em comum os três? Aí entramos no terreno do palpite, mas ouso arriscar uma resposta: a diversidade, populacional e cultural. Rio Grande do Sul e Santa Catarina são estados formados em grande parte por emigração, e o mesmo acontece com Brasília (só que aí é a migração de brasileiros, dos lendários candangos). Ora, o emigrante é um cara que luta: luta para sobreviver, luta por melhores condições de vida, luta para educar seus filhos. E frequentemente vence. Porque o emigrante é aquele cara que não se resignou a ficar onde estava, entregue aos queixumes e às lamentações; não, o emigrante é um cara que, à frente de sua família, foi em busca de uma existência melhor, viajando num pau de arara ou num precário navio. Um cara que chegou a um lugar para ele desconhecido mas que, sem se intimidar, procurou trabalho (e o gaúcho, que ajudou a povoar todo o oeste do país, é um exemplo disso). A combinação da cultura dos emigrantes com as tradições locais funcionou bem nesses três estados, mostrando que o Brasil é o verdadeiro melting pot, aquele panelão de misturas que os Estados Unidos sempre viram, acertadamente, como uma fórmula para o desenvolvimento.

DF, SC, RS: dá para acreditar no Brasil. O que, convenhamos, além de boa notícia, é um verdadeiro presente de ano-novo.

Publicada no dia 11 de janeiro de 2011 no caderno Diversão&Arte

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O acidente


Flávio não acreditava que moinhos de vento eram gigantes. Então naquela manhã, seguiu sua rotina de dependurar-se nas hélices de braços longos do resfriador de água da usina para lhe dar manutenção. Foi quando o gigante despertou e o arremessou diversas vezes contra as paredes até arrebentar a corda que o segurava. Rodando feito um saco estropiado, Flávio despencou. Foram doze metros de pregas de ar até espatifar-se no chão.
Despertou-morto assustado com o tempo o chacoalhando. Seria advertido por interromper o trabalho, por não contar com esse acidente na análise de risco, bastava olhar as feições assustadas de seus companheiros de trabalho para perceber que estava em má situação, talvez fosse até demitido.
Levantou-se depressa com o tempo lhe pisando os calcanhares e pôs-se a caminhar, mas por alguma razão, feito o avesso dos ponteiros do relógio, seguia em sentido contrário ao que se predispunha. Mais uma tentativa e lá ia ele na contramão. Uma olhadela para baixo e avistou calcanhares ao invés dos dedos dos pés, mais para cima viu a própria bunda. Girou no eixo e tudo continuava fora do lugar. Então Flávio se deu conta de que o quadril estava do avesso.
Fuga da usina
A ambulância chegou e na tentativa de ir ao encontro dos enfermeiros e explicar que tudo estava bem, se afastou como que às pressas.
– Está desorientado, a pancada lhe afetou a cabeça! Disse o enfermeiro magro e alto.
– Não podemos deixá-lo dormir. Advertiu o pançudo e baixo.
Quando despencou pela quinta vez, Flávio resolveu sair dali.
Sabia que se corresse para frente, iria para trás
então se pôs a correr para trás e seguir para frente
Flávio foi jogado sobre a maca. Batimento cardíaco, pressão, tudo anormal.
– O senhor sente alguma dor? Inquiria o gordo enquanto lhe apalpava as costelas.
– Não.
Os agentes da saúde se entreolharam. Mais uma pergunta:
– O senhor poderia nos dizer o que aconteceu?
– Bem, despenquei lá de cima… Mal terminou a frase e de novo Flávio caía, tentava andar, ia ao contrário e dava-se conta do quadril do avesso, os enfermeiros chegavam e de novo as perguntas. Era um círculo vicioso, problema sem solução. Então, quando Flávio despencou pela quinta vez resolveu sair dali. Sabia que se corresse para frente, iria para trás então se pôs a correr para trás e seguir para frente.
Alcançou os portões da usina, estranhamente todos percebiam o andar desajeitado, mas ninguém perguntava coisa alguma. Na medida que se afastava do emaranhado cinzento e infinito de ferro, gases e poeira, os passos ficavam mais largos e logo Flávio estava em casa. Seu pai assistia o noticiário da tarde sentado no sofá esburacado:
“Uma pessoa morreu e outra ficou ferida ao caírem da plataforma em que trabalhavam em Cubatão. Flávio Roberto da Silva Batista, de 26 anos, morreu no local e Anderson Benedito Ferreira, de 30, foi levado para o hospital”.
Flávio estava morto.
Dar a noticia ao pai
O velho levantou e desligou a tevê. Virou-se para a ex-esposa e perguntou sobre a notícia da televisão.
– Disseram o nome do Flávio. Ele argüiu diante da negativa.
– Confundiram com outra pessoa… a mãe de Flávio chorava lenta de calmantes.
Passava das seis e meia da manhã quando Vanessa, irmã mais nova de Flávio, chegou na casa onde ele costumava morar com a mãe, a esposa e a filha de três anos. Sentada no sofá velho, ela via a mãe caminhar perdida pela cozinha, sem encontrar o pó de café que se tornava urgente diante da água que fervia.
Vanessa passara a noite inteira ao lado do corpo do irmão no velório e agora tinha a tarefa difícil de dar a noticia da morte ao pai, que embora desconfiasse, ainda não sabia.
Os filhos de Jaqueline, a irmã mais velha da família, acabavam de acordar de uma noite atípica em que dormiram fora de casa. Naquela manhã também não iriam para a escola, tinham que enterrar o tio.
Vanessa acenou para que o pai sentasse ao seu lado e lhe entregou um copo de água e um calmante.
– Pai, o senhor sabe o que vou lhe contar, não é? O Flávio morreu ontem. O corpo foi velado de madrugada. Vamos enterrá-lo daqui a uma hora.
O relógio marcava sete da manhã. A mãe finalmente terminara de fazer o café. As crianças sentavam pelo chão carregando xícara e pão. Com o rosto escondido entre as mãos o pai chorava miúdo, numa resignação abafada. Insistia em não acreditar no que a filha lhe dizia:
– Erraram o nome, não erraram?…
Vanessa queria dizer que sim, mas passara a madrugada desconhecendo o corpo retorcido do irmão.
– A bacia dele está quebrada… O osso está do avesso por baixo da roupa. Seu rosto foi reconstruído, o calor já está abrindo furos na resina.
O enterro
Havia uma mesa posta sob a árvore do quintal da mansão em que morava num dos bairros mais ricos da cidade. Sentado, Omar apoiava os cotovelos nos filhos enrijecidos e na esposa que escorria oleosa tentando escapar do peso que a oprimia.
– Não vou ao enterro! Disse ele.
– Está certo. Eles podem estar enfurecidos! Concordou a esposa.
O filho mais novo queimava em lágrimas entupidas. Os três mais velhos comiam sem parar de suar. Todos engordavam dia após dia naquela mesa comprida de onde não parava de brotar pães, macarrão, coca-cola e pizza.
Sua BMW o esperava no portão, tentou alcançá-la,
mas ao invés de se aproximar, se afastava e acabou
chegando no terreno onde construiu sua primeira casa
Omar era o chefe da casa, dono da empresa onde Flávio trabalhava; vivia tão cheio do desejo de vencer que minhocas lhe entupiam a boca de idéias, saíam atravessadas pelo nariz, escapavam pelo canto dos olhos.
Naquele dia estava decidido a não deixar a morte de Flávio lhe tomar mais um dia de trabalho. Havia uma usina a ser alimentada e a rotina não podia estancar. Ele levantou apressado, com o tempo lhe apertando os passos. Sua BMW o esperava no portão, tentou alcançá-la, mas ao invés de se aproximar, se afastava e acabou chegando no terreno onde construiu sua primeira casa. Pôde assistir a esposa contar à vizinha:
– Todo o dia, ele chega do trabalho e se põe a medir o terreno. Não entendo de onde tira a idéia de que conseguirá construir três quartos, sala, banheiro, cozinha nesse terreno que levamos a vida toda para comprar.
Era um tempo em que a esposa o amava de incompreensão e ainda não se escondia no quarto, absorta do mundo, desinteressada de tudo. Ele caminhou até o terreno e tocou o chão:
– A sala vai ser aqui… Levantou-se decidido a se desvencilhar dos fios daquelas lembranças, mas ao invés de ir para frente, ele seguiu para trás e as lembranças o estrangularam. Rasgado em diversos pedaços ele tentou se reconstruir e então se deu conta de que seu quadril estava enviesado. Correu em desespero e chegou no velório, onde as mãos de uma menina de cabelos longos e olhos risonhos já o alcançavam. Ele não a conhecia, mas seus dedos longos passaram a abotoar botão por botão do casaco de lã que ele usava. Com a mão enleada à dele, ela o guiou até a entrada do velório, onde se afastou e foi ter com a mãe, Jaqueline, que se despedia do corpo do irmão.
Ele quis se afastar, e acabou por se juntar aos familiares. Jaqueline o olhava implodida, sua presença era escombros da manhã anterior, quando um funcionário foi até a sua casa e lhe deu a notícia da morte do irmão mais novo.
– Vocês mataram meu irmão?! Ele foi trabalhar e vocês o mataram! Não… não entra na minha casa! Saia daqui! Ela empurrava o funcionário que vencido pelos safanões logo se afastou.
Ali no velório, Jaqueline sequer esboçava um sinal de raiva. Era toda desamparo, já consciente de que bem algum poderia reparar aquele mal.
Omar viu o corpo de Flávio deixar a sala e ser enterrado na campa que ele comprara às pressas na noite passada. Descorçoado, se embrenhou nas ruas do cemitério. Já era noite e ele sabia que nunca mais conseguiria voltar para casa.

Quase 3 mil trabalhadores morrem a cada ano, no Brasil, vítimas de acidentes de trabalho, mas a tragédia não desperta comoção na mídia comercial. É como se ocorresse a cada duas semanas, em algum ponto do país, um grande acidente aéreo sem sobreviventes — e a opinião pública não fosse informada.
No ano de 2007, três trabalhadores morreram em dois meses (30/06 a 30/08) na siderúrgica Cosipa. Entre eles, Flávio Roberto da Silva Batista, de 26 anos. Todos eram vinculados a empresas terceirizadas, atuando nas piores e mais insalubres áreas da usina, com salários que correspondem a metade daquele pago pela companhia. O acidente que matou Flávio inspirou este conto.

Sindia Santos
 é colaboradora de Outras Palavras Biblioteca Diplô. Jornalista, pós-graduada em Jornalismo Literário pela ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário), adora narrativas e é movida por um imenso encantamento pelo ser humano e tudo o que ele é capaz de criar. Atualmente mora no Rio de Janeiro. Mantém o blog Fiandeira ["Fia quem confia que o algoodão pode virar linha, que linha entrelaçada é tecido, palavra, texto"]
 Imagem: fotograma de Metropolisde Fritz Lang

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Na cama de outro


I.

Era o início de uma tarde de sábado quando o telefone tocou. Meu marido subiu as escadas que o levavam ao quarto, onde empolgada, eu descobria a dualidade partícula-onda que compõe a matéria na física quântica.

– Qual a senha do seu e-mail?

Lancei-lhe um olhar que misturava despreocupação e reprovação e voltei à leitura. O livro me enlouquecia ao reconstruir o conceito de realidade, apontando-a como coisa indefinível, universo participativo que transmuta diante do observador, se manifestando horas por partículas e horas por ondas. Caía por terra a divisão de Newton, onde as partículas formavam a matéria e às ondas cabia constituir aquilo que não era fundamental em si.

– Segura minha mão.

A mão do meu marido era partícula que tremia e suava. Por um instante, me transformei em onda e fui o frio que brotava de seus dedos.

– Você tem um amante?

Quis mentir. Que diferença faria mais uma mentira entre todas aquelas que havia inventado em dez meses? E o que era mentira senão uma das faces daquele mingau de infinitas possibilidades que era a realidade, como apontava o livro. Paradoxalmente, eu tinha e não tinha um amante.

– Tenho.

Minha confissão causou um colapso na minha existência, assim como a realidade que se fixa quando observada. Repousei o livro sobre a cama, a atenção se interiorizou em acusações e explicações que nunca seriam possíveis. Vaguei no interior de um átomo e feito os elétrons de Niels Bohr, vi a verdade saltar descontinuamente entre consciência e razão. De repente, quando menos esperava, ela escapuliu num motim há muito ensaiado que uníssono me açoitava: adúltera!

Traí uma relação de nove anos, pesava-me a razão. Contudo não me traí, rebatia a consciência. Adultério é aquilo que acontece quando nos recusamos a ouvir o que o corpo tem para dizer. Adultério, ad alterum torum, palavra que vem do latim e significa na cama de outro. Na cama de outro apunhalei pelas costas o que eu era, bicho morto, renasci.

II.

Não pude chorar, não se tratava de culpa. Meu marido saiu. A casa permaneceu num silencio de angustia. Estagnei fixa a olhar pela sacada. Buscava algum desespero e só encontrava sinalizações duras. Estava feito. A casa nova, os móveis, as brigas, nada me segurara, todos me compeliram.

Quis amar e amei. Não importava muito em quais braços, desde que fossem os braços certos. Minha fé precisava de liturgia para se manter viva, criei um santo para venerar. Um santo que não fazia milagres porque estes eram de minha responsabilidade. E meu milagre seria separar-me. O divorcio; uma instituição tão antiga quanto o próprio matrimonio, a dissolução de laços social, cultural e jurídico. Babilônios, celtas, astecas, gregos, romanos, todos puderam recorrer à separação. Mas quem podia sedar os seus efeitos.

A flor de narciso quem sabe? Aquele do mito, que ao ver sua imagem refletida num lago, se lança numa busca desesperada pelo outro, e ao emergir descobre que não era o outro, mas sim, ele mesmo o objeto de seus sentimentos. Narciso mergulha e morre.

Parei no alto do penhasco marrom e cor de abóbora do meu sonho e me lancei ao mar, olhei para o significado daqueles nove anos. Não foi fácil conceber que estar junto doía porque em algum instante deixei de só ser. Em que momento essa massa sem formas, de regras e negligencias me abocanhou?, não sei. Meu amante era um reencontro, o mergulho no outro para emergir em mim, uma forma de não aceitar o fim.

Nove anos e o fim.

Éramos tão crianças… Todos os romeus e julietas estão fadados a morrer por não saberem assistir ao próprio crescimento, fazendo pactos para se manterem estreitos. Tanto amor num só olhar e agora o fim. Onde foi parar aquele tempo onde o mundo eram dois corpos a serem descobertos? Tanto amor e fim. Uma intenção simples de querer bem e fim. Onde está o amor agora, minha angustia? Atolado na avareza de nosso amadurecimento?

Era o fim e eu tentava velar meus mortos. O telefonema revelou-me o óbito. Velar os mortos. Sentei-me e espremi algumas lágrimas; não dos olhos, porque esses não eram a sua morada. As lágrimas vinham do estômago que se contraia num nó só.

Há uma fronteira que nenhuma mulher pode cruzar. As transpus para deixar de ser menina, do contrário ainda seria uma porção de carne, músculos e ossos, vazios, restritos. Fui além, decidi que merecia viver.

Pela primeira vez, vi-me por dentro num espelho. Confessei a mim desejos que condenava; condenei-me. Daquele instante em diante, seria eu mesma.

Em busca de mim rejeitei todos os valores que me foram apresentados. Dignidade, decência, moral, orgulho, todos se apequenavam diante da fome voraz por vida.

Distraída feito voyeur escondendo-se do mundo, percebi-me. Havia me acostumado a fingir não ver, percebi-me de surpresa, feito uma figura num quadro que retribui o olhar. Assustei-me, caí, mas mantive o comportamento daqueles que vêem o mundo como uma faz de conta. Fiz de conta que era imaginação e aceitei a brincadeira. Não havia como me machucar; enganava-me.

III.

Mais uma vez a porta bateu, encerrando-me agora num sepulcro cheio de sombras. A pena era aplicada: a insuportável vida latejava.

Um passo fazia a carne vibrar em toneladas de energia, olhar pedia uma força que a consciência não liberava. Agora, sim, a culpa.

Redimi-me ouvindo o que tinha para ser dito em ligações que cortavam a madrugada em xingamentos. Nenhum sentimento me tomava, eu era a pura abstração aprisionada no sentido de cada palavra: fraca, inconstante, volúvel, insatisfeita; porém desperta.

Não havia como me esconder da própria existência. A prova do meu crime eram as marcas em meu corpo. A ferro e fogo imprimi-as sobre a pele como castigo por ousar existir. Não, não havia como dizer que não era nada, contudo só valeria a pena se fosse amor.

Fechei os olhos em busca de amor num dos quartos de motéis que se misturavam em minhas lembranças.

Meu amante nu, sentado à beira da cama, sorria enquanto estendia as mãos entregando-me um copo de suco de laranja. Deitei-me de bruços ao seu lado, enquanto ele acariciava os cabelos que se esparramavam por minhas costas.

– Acho que nunca amei ninguém, ele me dizia.

Um perfeito estranho com o qual me sentia à vontade. Um homem que mal me conhecia e não fazia questão de me conhecer. Eu também não queria perguntar quem ele era, queria apenas sua mão escorregando por minhas costas nuas, queria o desejo refletido em seus olhos, queria o mistério que sua boca encerrava. Queria descobri-lo sem palavras.

Sua partida não causou saudade, causou estranheza, como letras sem significado num livro. Ele fechou os olhos, e me cegou. Valores, princípios e idéias, ele trouxe o vácuo que fez o mundo perder todo o sentido. Sem querer, a descoberta de hábitos que não eram meus, deuses que não era meus, mas que estavam lá, em algum lugar de mim.

Amor era sentimento nada abstrato que não se contenta em ser palavra; uma vez chamado ganha forma, vida, como havia me ensinado Virginia Woolf. Amor é a oração que nos faz dar um passo adiante, ato de fé.

Tomei coragem e disquei os números.

– Sua esposa ligou para o meu marido.

Meu amante ficou mudo e depois negou. Sua esposa estava deitada sobre a cama, remoendo a dor por ter lido nossas confidências. Sabíamos disso, mas em nome do que iríamos desestabilizar a mentira que a fazia sentir-se segura?

Pus-me de joelhos num altar sem velas. Espaço vazio de desejo morto, sem pernas. Arrastava-me nas afiadas ruas da lembrança, o meu deus se misturava a mim, abençoava-me, me tornava humana.

Sorte. Há pessoas que levam a vida inteira sem perceber que não têm vontades, desejam o que esperam que desejem. Meu deus é feito de carne e osso, repleto de imperfeições e tristezas, meu deus finge ser feliz porque almeja ser feito de éter; e é. O meu deus precisava ganhar sentido.

IV.

Vaguei pelo quintal num mês de separação. Quintal que guardava poeira, mato que crescia entre as pedras, subia pelas paredes. Quintal que sussurrava em ameaça: a vida reivindica seu espaço, não há como escapar!

Uma teia de aranha cortava o teto da garagem. O perverso inseto negro estava lá, longas pernas desconfiadas. Negra e ágil. Negra. Negra e bela. E com sua beleza caminhava devagar. Dia após dia alimentei-a com baratas e moscas mortas. A aranha causava-me arrepios no interior da pele, punha cada pêlo em polvorosa. Seu movimento cuidadoso me seduzia; havia algo de atroz que seqüestrava meu olhar. Ela era uma aranha, um ser negro venenoso de medo, com pernas longas de raízes de medo. Mas medo do que?

Todas as noites ela se arrastava em busca dos insetos que sua teia colhia durante o dia. Medo de quê, se essa traiçoeira agia pelas costas, recolhia-se amedrontada ao canto do telhado sempre que sua teia balançava.

Medo, ela tinha medo e passou a vida inteira no canto do telhado até que um pássaro, num vôo premeditado a capturou. O fim, no bico de um passarinho, bicho frágil que não causava medo. O passarinho com o seu canto não tinha medo de viver. Voava e mesmo que uma pedra o fizesse cair dos céus, ele voara a vida inteira.

Eu não era passarinho, mas feito o mito do passeio das almas de Platão ganhei asas, num amor que me trouxe lembranças de acontecimentos que vi quando andava pelo paraíso. As asas me tornaram anjo-pássaro-purificado. Anjo capaz de amar; amor é tudo o que move, diz a letra da canção. Eu me movia.

Tanto amor e fim. Fui embora. Ficar só era desejo latente. São Paulo, a maior metrópole da América Latina, cidade fria e cruel me acolheu. Fui embora porque nem amor nem ódio seguravam-me de pé. Fui-me porque não estava mais perdida, perde-se aquele que quer se encontrar, me encontrara. Restava saber o que era aquilo em vertiginosa existência à minha frente.

Aquilo era alguém que olha pela janela, num vazio tremendo, buraco sem passado, barco à deriva, folha ao vento, alguém que olha pela janela em busca de vida, de outras histórias, alguém que ri quando o marido desajeitado varre a casa com afinco, que se comove quando a mãe sai à varanda em busca de ar com o bebê nos braços, a amamentá-lo, alguém que se distrai com o porre dos adolescentes na festa do apartamento em frente, alguém que ouve o galo dos chineses da mercearia suja cantar, transformando a noite em dia. Que alívio, o dia!

A claridade trouxe a miragem de uma bruxa com lenço amarrado na cabeça e calças mijadas, com pés de unhas grandes e enegrecidas que pisavam na calçada suja, agitando-se de um lado ao outro em gritos de coisas incompreensíveis, numa voz ritmada de menina que destoava das rugas do rosto.

Foi a última imagem que vi antes de me atirar do nono andar, do numero 180 da Barão de Campinas. Uma queda rápida na ansiedade de descobrir quem eu era. E eu não era a mesma pessoa que olhou para baixo e teve fé ao não acreditar. Pisei no nada sabendo que aquele vácuo não me sustentaria. No dia anterior, numa esquina, uma moçoila, de saias curtas e barriga saliente fez-me um convite à diversão; as suas costas uma escadaria encardida. Um homem vestido de mulher, tão desencontrado quanto eu naquela vida.

Parei. Havia prazos que não poderia cumprir, não estava pronta; amores que não poderia amar, não estava pronta. Na vida, eu era uma prostituta sem malicia que não poderia sobreviver.

Fechei os olhos, estava no coração de São Paulo, com suas ruas que levavam a canto algum. Sentia batidas pulsarem em minhas têmporas e inundarem meus ouvidos. Tum-tum, tum-tum, tum-tum, Srvam, bibi-bibi. Uma pomba parou perto da janela, nos encaramos por alguns instantes, não nos reconhecemos. Cansada ela se lançou ao ar alçando vôo para longe. Não muito. Várias outras apareceram e seguiram o mesmo caminho.

Algo acontecia dentro de mim que não sabia explicar. Era uma mutação que horas me envelhecia e horas me punha insana. Não cria mais no que via, podia passar através de portas, mas esse encontro doía. Doía porque me modificava e porque não queria me misturar à madeira da porta, madeira morta. Queria passar através dela.

Lá embaixo os carros continuavam a enviar sangue ao coração de São Paulo numa música sem ritmo que entontecia.

Lá na frente, meu marido caminhava de um lado ao outro. Passos de um homem que mergulharia com maestria num novo corpo, descobrindo com sutileza outros prazeres, avançando e conhecendo.

O que me tortura é o bálsamo de meu coração. Meu marido não é mais o que foi; a criança ingênua que dormiu em meus braços, que chorou sobre meu corpo não existe mais. Morreu quando meu sofrimento me renasceu.

Lá atrás, deitamos numa cama de areia e o céu nos presenteou com estrelas que caiam. Um pedido!

– Alguém com quem eu possa sentar e olhar a linha do horizonte.

É possível tocar um coração fragmentado. Minha alma foi banhada com lagrimas pontiagudas que se perderam num instante que eu não poderia alcançar. Era longe, tempo de terra seca que não quer ver o mar contido num olhar, aquele primeiro que nos uniu.

Marejou, meu corpo inteiro marejou. Quem rachou o céu que nos protegia? Sim foi amor, agora posso ver na pontinha do rastro do cometa que nos transformou.


Sindia Santos
é colaboradora de Outras Palavras e Biblioteca Diplô. Jornalista, pós-graduada em Jornalismo Literário pela ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário), adora narrativas e é movida por um imenso encantamento pelo ser humano e tudo o que ele é capaz de criar. Atualmente mora no Rio de Janeiro. Mantém o blog Fiandeira ["Fia quem confia que o algoodão pode virar linha, que linha entrelaçada é tecido, palavra, texto"]